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  • Foto do escritorRita Lança

Saúde Integral: Uma conversa sobre saúde na primeira pessoa


Esta Mesa Redonda nasce de um desejo profundo que o Carlos Chan me expressou, no dia em que nos conhecemos, de criar um espaço para dar voz a pessoas que, no contexto de doença oncológica, têm recorrido a várias abordagens, desde as convencionais às complementares, numa lógica de Medicina Integrativa, e que têm conseguido resultados diferenciadores, mesmo em quadros de diagnóstico oncológico avançado.


Sinto-me muito agradecida pelo caminho que temos trilhado juntos e pela sua persistência em, nas suas palavras, “atravessar desertos, em busca de oásis”. Bem-hajas Carlos e a toda a Equipa do Dojo


Agradeço também à Vera Luís e à Rute Silva os seus testemunhos nesta conversa tão enriquecedora.


Podem escutar o áudio Saúde integral: Uma conversa sobre saúde na primeira pessoa.


Saúde Integral na Primeira Pessoa


O tema desta Conversa - Saúde Integral na Primeira Pessoa - centrou-se na discussão e descrição de opções e estratégias no âmbito da Medicina Integrativa na abordagem a doenças oncológicas. A saúde do ser humano vista a partir de diversas dimensões e necessidades, em confronto com as respostas disponibilizadas pelo sistema de saúde.


Partindo de dados estatísticos e da demonstração do predomínio de estratégias médicas (medicação, suporte respiratório, entre outros) ao nível dos cuidados de saúde, exemplificado pelos dados avançados no recente Congresso Internacional de Cuidados Paliativos, que decorreu em Março de 2024 em Castelo Branco, discutiu-se a menor relevância dada a outro tipo de respostas como sejam o acompanhamento a nível nutricional, o apoio social, em processos de luto e/ou acompanhamento espiritual.


Refletimos acerca de questões como:


- o que implica uma abordagem integrativa?

- o que caracteriza a filosofia e abordagem da Medicina do Leste Asiático?

- com que tipo de dificuldades as pessoas com doença oncológica se debatem?

- que tipo de decisões diárias mais influenciam o nosso bem-estar?

- porque é importante acolher a dimensão espiritual no processo?


Vera Luís, um dos testemunhos nesta Mesa Redonda, frisou a importância de as pessoas “não se basearem numa só porta e abraçarem várias possibilidades”. Dada a complexidade da vivência da doença oncológica, considera, de acordo com a sua experiência, que “não existe uma resposta, existem várias dimensões”, para atender às necessidades do “ser relacional” que somos e melhorar a condição de vida.


Saúde integral uma conversa sobre a saúde

Estilo de Vida


Partindo da reflexão acerca de hábitos e rotinas, Vera salientou que uma das mudanças que introduziu e mantém no seu estilo de vida foi a prática regular de exercício físico. Nesta esteira, Rute Silva, testemunhou exemplificando também a relevância que tem assumido no seu processo de recuperação as alterações ao nível dos cuidados na alimentação. Ambas focaram que uma das grandes mudanças que introduziram se relaciona com a forma como vivem o tempo, com uma maior consciência da presença, do autocuidado e das prioridades que colocam no centro da vida.


Discutiu-se o papel da prevenção numa abordagem integral e Carlos Chan trouxe algumas pistas para a reflexão conjunta, desde a sua experiência de acompanhamento.


Foram mencionados alguns receios presentes nestes processos, amplificados pela parca informação disponível face a alternativas mais personalizadas a nível de cuidados, bem como o impacto destas vivências a nível do universo familiar.


Lacunas dos serviços de saúde


Como explicou Rita Lança, uma das grandes lacunas por parte dos serviços é o acompanhamento familiar de continuidade, que abranja a conexão com a família/rede de pessoas significativas como uma unidade de cuidados. 


Em contraponto ao tipo de acompanhamento que desenvolve enquanto Doula das

Transições, assinalou que, no âmbito dos serviços, são escassas as respostas de acompanhamento no domicílio. Foi enfatizada a relevância da facilitação de sessões familiares que, entre outras, ajudem a lidar com medos que surgem perante novos desafios, a esclarecer dúvidas, suportando na tomada de decisões.


No âmbito de serviços de saúde, as reuniões familiares são sobretudo de cariz informativo. Na prática, todos os familiares estão a sofrer, amiúde em silêncio, até para protegerem o outro. Rita metaforizou este desafio com a imagem de que cada pessoa tem uma peça do puzzle, só quando se juntam o puzzle fica completo.


Rute Silva salientou que “não se fala da dimensão espiritual do processo. Faz parte do processo, é uma descoberta bonita”. Vera expressou a importância de “estar acompanhado por alguém que te oiça”, num contexto em que haja espaço para falar de auto perdão, perdão, de práticas diárias de reconexão.


Acompanhamento espiritual


No âmbito do acompanhamento espiritual que desenvolve, Rita Lança, falou de necessidades espirituais presentes nestes processos, das consequências das mesmas não serem atendidas e da parca resposta por parte da maior parte dos serviços. Rita fez ainda uma breve introdução acerca de espiritualidade e mitos associados à espiritualidade/religião, com alusão a práticas diárias contemplativas.


Citando Pablo d'Ors , “Quando estamos quietos, descobrimos que estamos inquietos”, Rita mencionou que estamos em “permanente gestação de nós próprios”. Falou da importância de “nos ressignificarmos através das mudanças”, para lá da “velocidade imposta” com que diariamente nos confrontamos. Questionou “que momentos temos ao longo do dia para nos reconectarmos?”. 


Ainda no contexto da espiritualidade , falou-se de sofrimento, de compaixão, de gratidão, de interconexão, com alusão à visão ampla da Medicina do Leste Asiático.


Terminámos a Mesa Redonda, com pistas contemplativas de Tolentino de Mendonça (42º Congresso Português de Cardiologia), propostas pela Rita.


Feliz é aquela ou aquele que faz do coração dos outros o seu próprio coração.

Existem tarefas que caracterizam o caminho de aprendizagem necessário à conquista da felicidade:


1. reconciliar-se com a vida;

2. amá-la tal como se apresenta;

3. dar até o que não se tem;

4. agradecer o que não nos dão;

5. cuidar do que nos faz felizes.


Felizes são aqueles que, no incompleto e no inacabado, são capazes de ver mais uma promessa do que uma lacuna.


Mas então, quando chega a felicidade?

Cuidar do que nos faz felizes, da alegria, identificar as raízes com que esta se agarra ao quotidiano e cuidar delas é assim o princípio do caminho. Depois é preciso cuidar melhor da leveza, uma espécie de transparência e gratidão, ligadas ao milagre que a vida é em cada instante.


As pequenas esperanças, tantas vezes ignoradas pela ideologia da felicidade, são essenciais neste processo de gratidão que nos ensina que a árdua fadiga de viver e a sombra não são necessariamente contrárias à felicidade, mas caminhos alternativos, que, se forem seguidos e aceites tal como se apresentam, podem conduzir-nos à indizimável experiência que é a vida.



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